O esquema de propina no Ministério da Educação (MEC) envolvia compra de Bíblias para serem distribuídas nas cidades e dinheiro para a igreja evangélica. Prefeitos de dois municípios afirmam que o pastor Arilton Moura, que faz parte do gabinete paralelo MEC, denunciado pelo Estadão, era quem fazia a negociação em troca de verbas do governo.

Versões da Bíblia comentada por Gilmar Santos, outro pastor próximo de Ribeiro, foram distribuídas em um evento com o ministro na cidade de Nova Odessa, no interior de São Paulo. Santos é também o dono da editora Cristo para Todos, que produz os livros.

O prefeito de Bonfinópolis (GO), Professor Kelton (Cidadania), relatou ao Estadão que foi convidado para almoçar por um dos pastores após uma reunião no Ministério da Educação, no começo do ano passado. No restaurante, contou, Arilton disse que se o prefeito tivesse “interesse” em recurso para escola no município, o pastor poderia “organizar”.

“Mas eu quero R$ 15 mil”, afirmou Arilton, segundo o perfeito. “Você tem que me dar R$ 15 mil para eu custear minhas despesas aqui, que eu tenho em Brasília.” Professor Kelton contou que disse ao pastor que o município não poderia fazer este tipo de pagamento, “que não era legal”. “Eu, pessoalmente, não tenho condições de fazer isso.”

Segundo um prefeito do interior paulista, que pediu para não ser identificado, a aquisição de Bíblias era uma condição prévia para que Ribeiro fosse até a cidade. O mesmo teria ocorrido em São João da Boa Vista, a 200 quilômetros da capital. Fontes ouvidas pelo Estadão disseram que as Bíblias deveriam ser compradas pela Prefeitura. A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico, ou seja, que não incentiva ou tem relações econômicas com nenhuma religião específica. E a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) veda qualquer forma de proselitismo.

Gilmar Santos controla a editora Cristo Para Todos, que leva o mesmo nome do ministério religioso liderado por ele em Goiânia. A editora foi fundada em 2013 com capital social de R$ 110 mil no bairro Jardim América, onde fica também a sede da igreja.

No evento em Nova Odessa, houve pregação dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, que não têm cargo no MEC, mas direcionam a agenda do ministro. “Foi uma situação muito desconfortável, escandaloso para quem é da educação. Eles iam chamando as pessoas e pediam para retirar brindes, que era a Bíblia”, contou uma secretária que esteve no evento e pediu para seu nome não ser publicado.

Ela disse que as Bíblias estavam em mesas junto a profissionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do MEC, que resolviam eventuais dificuldades das Prefeituras com merenda, transporte e materiais didáticos. Representantes de prefeituras e pastores de igrejas da região, perto de Campinas, também foram chamados. Jovens da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) tentaram entrar, mas foram impedidos pela polícia.

Durante o atendimento a prefeituras em Nova Odessa, em cima do palco, o pastor Arilton Moura perguntou se a plateia sabia o motivo de eles estarem ali. “Porque vimos a necessidade do evangelismo em cada município desses”, afirmou. Ao discursar, o ministro agradeceu o pastor Gilmar Santos e o chamou de “meu amigo, meu irmão”.

Educadores de Nova Odessa reclamam da influência religiosa até na formação de coordenadores pedagógicos, com leitura de trechos da Bíblia e bênçãos. Procurado, o prefeito da cidade, Claudio José Schooder (PSD), conhecido como Leitinho, não respondeu até a conclusão desta edição.

PESQUISA. Em sua página do Facebook, Gilmar Santos diz que passou anos estudando as passagens da Bíblia que falam sobre cura e o livro seria um resultado dessa pesquisa. O nome da obra é Bíblia, Estudos da Cura Divina. O Estadão tentou contato com a editora, mas não obteve sucesso.

Em São João da Boa Vista, a visita do ministro foi em abril de 2021. Procurada pela reportagem, a prefeita Maria Teresinha de Jesus Pedroza (DEM) negou que tenha comprado Bíblias para distribuição durante o evento. “Ele fez um palestra no Teatro Municipal, houve um almoço e uma recepção. O ministro foi convidado para vir a São João através de contatos que temos na política”, afirmou. “É um absurdo, como as pessoas podem inventar coisas, não teve nada de Bíblia, foi uma reunião de trabalho”, completou.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.