Whoopi Goldberg, apresentadora do The View, foi suspensa por duas semanas por comentários considerados ofensivos sobre o Holocausto. Embora tenha pedido desculpas depois, Goldberg despertou uma onda de cancelamento, quando disse no programa que o genocídio de 6 milhões de judeus pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, não foi sobre raça, mas sim, sobre “a desumanidade do homem para com o homem” e que o conflito estava entre “dois grupos brancos de pessoas”. Depois de se desculpar no Twitter, a suspensão veio no dia seguinte, quando o programa convidou o CEO da Liga Anti-Difamação para um de seus tradicionais debates.

A reação da apresentadora estimulou fortes emoções e dividiu opiniões sobre se a atriz , politicamente liberal, deve ser cancelada ou aconselhada. Isaac de Castro, editor do Jewcy, uma plataforma online para jovens judeus, disse no Twitter que os comentários ofensivos de Goldberg refletiam a incapacidade de muitos americanos de entender raça e racismo fora de seu prisma. Mas ele também escreveu em um tweet que “colocar uma mulher adulta em castigo” faz pouco para avançar um acerto de contas com a identidade judaica.

“Agora estamos falando sobre se Whoopi deveria ser suspensa ou não, em vez de falar sobre o assunto em questão… e ter uma conversa maior sobre antissemitismo e racismo e a complexidade da história judaica”, disse Castro, que vive em Nova York e na Cidade do Panamá.

Muitos democratas apoiaram Goldberg, alguns republicanos proeminentes a condenaram enquanto outros correram em sua defesa. “Não cancelar Whoopi”, tuitou o senador republicano Ted Cruz, do Texas, que há muito acusa a mídia de tentar silenciar a direita. Alguns espectadores ameaçaram boicotar o programa pelo que ela disse e outros pela atitude desequilibrada da ABC contra uma mulher negra por comentários que não eram maliciosos.

“Whoopi fez um comentário sem fundamento, mas as pessoas pularam em sua garganta de uma maneira que não acontece com celebridades não negras”, disse Malana Krongelb, bibliotecária de Boston que é negra e judia. Segundo Krongelb: “O The View tem uma plataforma que poderia realmente usar para educar a população. Mas, em vez disso, é quase usado como uma isca de cliques.’

Outros espectadores ponderam que a discussão é melhor do que a punição. “Se o que você quer é mudar a mente de alguém, eu tenho que pensar que a educação é mais eficaz do que a vergonha pública e a punição. Particularmente, quando sabemos que essa pessoa mostra uma vontade sincera de aprender e se desculpar”, tuitou Sharon Brous, rabino de Los Angeles. “The View é um talk show diurno americano no qual os apresentadores discutem tópicos candentes do dia. Eles são encorajados a serem provocativos, e recusar uma opinião meio que anula o propósito do programa”, disse Tom Jones, redator sênior de mídia do Poynter Institute.

“Seria bom se essas coisas nunca acontecessem, mas se algo de bom pode sair disso, é: educação [se constrói] pelas pessoas tentando descobrir mais sobre o que disseram, [e se perguntando o] por que é ofensivo?”, disse ele.

Os defensores de Goldberg lembram de uma das ex-apresentadoras, Meghan McCain, que se desculpou no ano passado por tolerar, anteriormente, a retórica racista do então presidente Donald Trump em relação aos asiáticos. Em uma coluna do Daily Mail publicada na terça-feira, McCain disse que não pede que Goldberg seja demitida, em grande parte porque ela não acha que o programa faria isso com sua estrela.

Não ficou claro se McCain escreveu a coluna sabendo da suspensão, mas ela colocou seu pedido de desculpas para que fosse usado rm um momento “ensinável”. “Em vez de desculpas meia boca e trazer especialistas para discutir antissemitismo, talvez seja melhor dedicar um segmento inteiro de ‘Hot Topics’ para discutir por que o que foi dito foi tão profundamente ofensivo e perigoso”, escreveu McCain.

Goldberg explicou ao apresentador de talk show Stephen Colbert, em um episódio que foi ao ar na noite de segunda-feira, que sua percepção de raça é baseada na cor da pele, mas que ela estava errada. Ela se desculpou novamente na manhã de terça-feira no The View e convidou Jonathan Greenblatt, CEO da Liga Anti-Difamação, para o episódio daquele dia para falar sobre o Holocausto. Ele disse em um tweet que apreciava muito o convite dela e que seu pedido de desculpas é muito bem-vindo”.

Mas o presidente da ABC News, Kim Godwin, anunciou sua suspensão na terça-feira. Na quarta-feira, a ex-diretora de comunicações do Partido Republicano Tara Setmayer conversou como co-apresentadora convidada e ninguém disse nada sobre judeus ou o Holocausto.

Ao anunciar a suspensão, a ABC disse que estava pedindo a Goldberg “um tempo para refletir e aprender sobre o impacto de seus comentários.” A rede não respondeu aos pedidos de comentários na sexta-feira sobre a reação do público à suspensão. O que as pessoas parecem estar esquecendo é que Goldberg fez seus comentários durante uma polêmica sobre a proibição de um conselho escolar do Tennessee ao livro Maus, graphic novel vencedora do Prêmio Pulitzer sobre os campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Contexto

Autoridades conservadoras de todo o país estão tentando proibir o acesso a livros como Maus e O Projeto 1619 – que coloca a escravidão negra e os negros americanos no centro da história dos EUA. Seu próprio livro, The Black Friend: On Being a Better White Person, está sendo contestado por alguns pais, disse ele, porque eles têm certeza de que é doutrinação, disse o autor Frederick Joseph.

Segundo ele, “Goldberg estava vendo a questão da raça através das lentes de uma mulher negra nos Estados Unidos, e essas lentes não tinham conhecimento histórico do que o Holocausto realmente era.”, e completa: “Mas também, para ser bem franco, como um americano negro, não aprendi muito sobre o Holocausto na escola, eu espero que Whoopi aprenda, espero que Whoopi cresça, mas como ela pode se não lhe dermos a oportunidade?”

Não é de hoje que os marginalizados afirmam que crianças e adolescentes não recebem uma educação robusta nas histórias das culturas judaica, negra e outras. Teria sido incrível se o The View tivesse dedicado a duração da suspensão de duas semanas a Whoopi a discussões sérias sobre as partes mais horríveis da história, avaliam os entrevistados.

Krongelb, a bibliotecária, diz que o antissemitismo e o racismo antinegro têm muito em comum, com ambos os grupos sofrendo de estereótipos desumanizantes e compartilham uma história de exclusão nos EUA. “Se nós simplesmente cancelarmos as pessoas por dizerem algo problemático ou por fazerem algo com o qual não concordamos, então esses os danos continuam”, disse ela.

A Liga Anti Difamação afirmou que Greenblatt não poderia comentar sobre a suspensão de Whoopi e apontou para um artigo de opinião escrito e publicado na quinta-feira no USA Today. No texto feito pela Liga, fica clara a posição de que os comentários foram especialmente dolorosos, ditos justo quando a negação do Holocausto está aumentando globalmente e os políticos comparam falsamente as regras do uso de máscaras e incentivo às vacinas contra covid às ações nazistas, banalizando ainda mais o Holocausto.

As observações pareciam reconhecer o poder de audiência que Whoopi tem. “Ela tem uma tremenda oportunidade de usar sua plataforma não apenas para se educar, mas para compartilhar o que aprende com seu público e com todo o país”.

Agência Estado