Semanas antes de publicar o clássico Os Sertões, o escritor Euclides da Cunha se isolou numa sala da Editora Laemmert e corrigiu à tinta, de próprio punho, 80 erros impressos em cada um dos mil exemplares. A obsessão do autor pela imagem de seu trabalho tornou ainda mais rara e valiosa a 1ª edição da obra. No próximo dia 4 de dezembro um desses exemplares será leiloado no Rio. Um detalhe: é a primeira vez em 15 anos que uma 1ª edição ainda com a capa original da brochura aparece no mercado de livros raros. Para manter as características do exemplar, a livraria Letra Viva, organizadora do leilão, evitou reencadernar e acondicionou a obra de 632 páginas num estojo.

Considerado um marco da literatura e do livro-reportagem, Os Sertões teve seu primeiro lote bancado pelo próprio Euclides. As vendas da obra dispararam logo após o lançamento, no final de 1902. Era o surgimento do primeiro best-seller do mercado nacional, primazia dividida com o Canaã, de Graça Aranha, publicado no mesmo ano. Os dois livros tiveram a ousadia de retratar um país diferente daquele conhecido nos grandes centros.

Em 1897, anos antes do clássico ser disputado por leitores nas livrarias da Rua do Ouvidor, no Rio, Euclides, então um jovem engenheiro militar que atuava na propagação dos ideais republicanos, seguiu para o interior baiano como correspondente do Estadão no conflito que envolvia de um lado o Exército e de outro a comunidade sertaneja de Canudos, liderada pelo líder messiânico Antônio Conselheiro. Crimes cometidos pelos militares foram relatados na obra.

De lá para cá, a oficialidade brasileira procurou, sem alardes, desqualificar sem sucesso a versão de Euclides de que as tropas cometeram crimes de guerra, como a decapitação e a execução sumária de prisioneiros. Livros foram publicados pelos militares nos anos seguintes, alguns para atenuar a questão, outros para apresentar depoimentos pessoais. Um deles foi A Guerra de Canudos, do tenente de infantaria Henrique Macedo Soares. A 1ª edição da obra, publicada pela Typ. Altina, em 1903, também está no leilão do Rio.

Há tempo que a 1ª edição de Os Sertões ganhou status de joia literária. Um dos exemplares foi entregue como relíquia nacional pelo bibliófilo José Mindlin a Jorge Luis Borges numa visita do escritor argentino a São Paulo em 1984. Foi a obra brasileira mais comentada por Borges ao longo da carreira.

Os Sertões resiste ao turbilhão de mudanças e revisões no mercado editorial e literário e nos debates acadêmicos. Os capítulos iniciais da obra que retratam o ambiente e as características humanas na região envelheceram, como termos geológicos ultrapassados e visões que expõem preconceitos da época. Mas se, em muitos trechos, o sertanejo é retratado como uma “sub-raça”, numa página, em especial, ele aparece “antes de tudo” como um forte, numa indiscutível contradição. O livro marca também um momento de ruptura do jornalismo, que se volta para o interior e não apenas para fatos do exterior.

O DRAMA DO CASACO

Cartas do baiano Jorge Amado também estão no leilão. Numa série delas, o autor de Gabriela, Cravo e Canela reclama com o amigo Antônio Olinto que o compositor João Gilberto, o papa da bossa nova, pegou emprestado um casaco para viajar e não havia devolvido. “Eu ficaria muito contente se você fizesse um esforço junto ao João Gilberto e pudesse me enviar o célebre casado, pois dele bem necessito para minha viagem à Europa”, escreveu Jorge a 8 de novembro de 1965. Ele finalizava, naquele momento, seu principal romance de costumes: “Preciso terminar com Dona Flor, senhora que me perturba o sono”, relatou em carta de 22 de novembro.

Agência Estado