Quando pisar no palco do Teatro Antunes Filho – Sesc Vila Mariana -, nesta sexta, 15, o ator Duda Mamberti, de 56 anos, sabe que vai experimentar uma sensação desconhecida em mais de três décadas de carreira.
Como o judeu Dasco Nagy, protagonista do espetáculo O Ovo de Ouro, o artista deve desafiar as próprias emoções na pele do último personagem representado em um palco pelo pai, o ator Sérgio Mamberti, que morreu, aos 82 anos, em 3 de setembro, por causa de uma infecção pulmonar. “Não carrego a pretensão de levantar o bastão do meu pai porque sei que é impossível, mas vou sentir um peso, uma pressão que vai me tocar em pontos que nem imagino”, reconhece.
A peça, escrita por Luccas Papp e dirigida por Ricardo Grasson, abre a temporada presencial do Sesc Vila Mariana em sessões nesta sexta, 15, e no sábado, 16, às 21h, e domingo, 17, às 18h, com ingressos a R$ 40. Nos dias 23 e 24, será a vez do Sesc Santos e, em novembro, São José dos Campos e São Carlos, com a previsão ainda de uma turnê nacional em 2022.
O drama remete a um trauma histórico, o Holocausto. Nos dias de hoje, Dasco Nagy relata a uma jornalista (papel da atriz Rita Batata) as experiências dolorosas do nazismo e sua contribuição involuntária ao sistema. Ele serviu ao sonderkommando, unidades formadas por prisioneiros para trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios dos campos de concentração. Leonardo Miggiorin, Ando Camargo e o próprio autor, que interpreta Dasco na juventude, completam o elenco.

 

Duda se lembra bem quando, em meados de 2019, o pai recebeu o texto de O Ovo de Ouro e começou a estudá-lo com sua ajuda. Os dois decoraram os diálogos, discutiram bastante sobre o personagem e relembraram histórias que remetem à família.
A atriz Vivian Mehr (1942-1980), mãe de Duda, teve uma criação judaica tradicional e o pai dela, David, fez questão de passar seus conhecimentos aos netos, Duda, Carlos e Fabrício. “O meu pai, que interpretou vários judeus ao longo da carreira, usava meu avô como referência e, neste espetáculo, não foi diferente”, conta. “Agora, vai ser o meu momento de pensar nos dois e dar meu tempero ao personagem.”
Não é a primeira vez que Duda abraça um papel feito por Mamberti. Em 2010, na peça Rancor – Farsa Intelectual, de Otavio Frias Filho, ele assumiu o tipo defendido pelo pai em 1993. O famoso Dr. Victor do programa Castelo Rá-Tim-Bum também ganhou a cara e o corpo de Duda na versão para o teatro musical em 2019, mas foi na televisão que pai e filho dividiram, em fases diferentes, o melhor personagem, Dionísio Albuquerque. O vilão da novela Flor do Caribe, exibida pela Globo em 2013, era um ex-carrasco nazista que morava no Brasil. “Um cara horroroso, sem escrúpulos, que se aproveitava da fragilidade dos judeus para extorqui-los”, define Duda. “Em uma das cenas mais pesadas, eu gravei com uma camiseta que trazia a estrela de Davi por baixo do figurino para exorcizar as atrocidades que fazia como aquele monstro.”
A estreia de Duda como artista foi na cena final do filme Todas as Mulheres do Mundo, dirigido por Domingos Oliveira em 1966. Ele é o bebê carregado no colo pelos atores Paulo José e Leila Diniz. Pouco depois, na peça Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, que tinha seu pai no elenco, o comediante Agildo Ribeiro atravessa o palco com um carrinho de nenê – e lá dentro estava o pequeno Mamberti.
Durante a temporada de O Balcão, entre 1970 e 1971, ele ficava nas coxias brincando com os filhos de outros artistas e se assustava com o ensurdecedor barulho do elevador cenográfico da montagem. “Eu sempre enxerguei meu pai como um ator, mas só comecei a entender os trabalhos dele nas peças Réveillon, O Diário de Anne Frank e A Infidelidade ao Alcance de Todos, quando tinha uns 11 anos e acompanhava todas as sessões de domingo.”
Nenhuma dessas histórias é trazida à tona com tristeza. Duda não sabe se ainda não caiu a ficha da perda do pai, mas confessa que se conformou, compreende o inevitável da morte. “Entre 1975 e 1982, nós vimos morrer a minha mãe e meus quatro avós, então ficamos cascudos, entendemos bem cedo que precisamos guardar na memória as horas de felicidade e meu pai sempre acreditou na alegria”, justifica.
Nos últimos meses, em meio a quatro internações, Duda acredita que Mamberti percebeu que chegara perto do fim e tentou deixar tudo organizado, como fazia antes de uma viagem ou um trabalho mais extenso. “Ele se despediu dos amigos, escolheu a roupa do enterro e, como sempre teve projetos, sugeriu os atores que gostaria de ver nos papéis que seriam dele e, me disseram, que eu estava em uma das listas.”