A MPB está mesmo invadindo as produções audiovisuais!

Neste semana ficamos sabendo de três novas obras que contam a história de grandes nomes da nossa música popular brasileira.

A primeira obra é uma série documental sobre o grupo Secos & Molhados, que está em produção desde 2019 e será exibida pelo Canal Brasil. A série prevê quatro episódios roteirizados a partir da narrativa contada pelo jornalista Miguel de Almeida na biografia Primavera nos dentes – A história do Secos & Molhados, livro editado em julho de 2019.

Uma das bandas mais importantes da história do nosso país, o Secos & Molhados trouxe algo completamente inovador para a música popular brasileira, apesar de ter influências tanto do rock’n roll quanto da MPB – principalmente da Tropicália – do pop psicodélico, do folk e de elementos rítmicos da música latina. Apesar do curto período de duração, a banda transformou-se em um fenômeno de público e crítica.

Formada em 1971, trazia em sua formação original Ney Matogrosso nos vocais, João Ricardo nos vocais, violão e gaita e Gérson Conrad nos vocais e violão. O grupo começou se apresentando em uma sala do Teatro Ruth Escobar e lotando os espetáculos com um público ávido por suas performances. Foi assim que receberam o convite para gravarem seu primeiro disco.

Com seu visual andrógeno – uma novidade para o Brasil da época – suas maquiagens e figurinos super modernos, a performance da banda impressionava além da qualidade vocal e musical, mas também na atitude no palco.

Foram um dos primeiros a trazer o estilo chamado glam rock pro Brasil – muito comum na Inglaterra e popularizado por David Bowie – marcado por roupas extravagantes, pela androginia e por performances teatrais com muitos trajes futuristas, esbanjando energia sexual.

O grupo surgiu em meio a um tempo de repressão da Ditadura Militar no Brasil, com o cerceamento das liberdades democráticas, de expressão e das criações libertárias. Suas canções trazem também temas como a liberdade, pautas sociais e a paz, servindo como um respiro de alívio e esperança para o sufocamento vivido na época.

O primeiro disco do Secos & Molhados, com título homônimo, de 1973, vendeu mais de um milhão de cópias e conta com várias canções de João Ricardo, principal compositor da banda.. O álbum une a poesia de grandes autores com canções do folclore português e de tradições brasileiras.

O disco – que mudou para sempre a história da MPB e é considerado pela Revista Rolling Stone Brasil como o quinto maior álbum da história da música popular brasileira – e nos apresentou mega sucessos como: O ViraFalaSangue LatinoRosa de Hiroshima, AmorAssim Assado e Mulher Barriguda.

Considerado uma obra-prima, criativo e experimental, o disco e a banda possibilitaram uma reinvenção da música pop nacional e sua estética traz algo que nunca existiu igual na música brasileira, nem antes, nem depois dos Secos & Molhados.

Em 1974, a banda lançou o seu segundo disco, Secos & Molhados, na mesma linha do anterior, mesclando estilos e influências diversas e trazendo adaptações de poemas. Entre as principais canções estão: Flores Astrais, Não Não Digas Nada e O Hierofante.

Logo em seguida ao lançamento desse disco, o grupo se separou e seus integrantes saíram em carreira solo. Ney Matogrosso já estava no caminho de se tornar uma das maiores vozes do Brasil. O grupo entrou em hiato na ocasião e retornou em 1977, com outros músicos ao lado de João Ricardo. Permaneceu na ativa até 1988, com reuniões esporádicas em 1999 e 2011.

secos e molhados
Foto: Instagram | @secosemolhados

Além da série documental, também está prevista para 2023 uma série de ficção, produzida pelo GloboPlay, com os atores Gabriel Leone, Maurício Destri e Caio Horowitz interpretando Ney, João e Gerson, respectivamente.

Outra novidade é a obra cinematográfica que nos fez vibrar nesta semana foi a produção de um filme sobre Chico Science, líder da banda pernambucana Nação Zumbi, que nos deixou inesperadamente, aos 30 anos, vítima de um acidente automobilístico em 1997.

Natural de Olinda, seu nome de nascimento é Francisco de Assis França – o Science entrou como nome artístico porque ele sempre gostou de mexer com a alquimia dos sons, como um cientista. Chico cresceu ouvindo ritmos nordestinos como coco, ciranda, maracatu e embolada, mas também gostava muito de rock, hip-hop (fez parte de um dos principais grupos de dança de rua do Recife), jazz e soul music americana (uma das suas maiores influências era James Brown).

Foi dessa mistura que surgiu, em 1991, a banda Chico Science & Nação Zumbi, fazendo um som revolucionário, com canções energéticas, muito bem elaboradas, que mesclavam funk rock com maracatu, embolada, psicodelia e música Afro. Com a banda, o artista lançou dois álbuns que conquistaram Disco de Ouro: Da Lama ao Caos (de 1994, considerado pela revista Rolling Stone o 13º melhor disco brasileiro de todos os tempos) e Afrociberdelia (de 1996, que também entrou para  lista dos 100 melhores discos da música brasileira de todos os tempos, na posição 18).

chico science
Foto: Instagram | @chicoscienceoficial

Chico foi também um dos principais colaboradores do movimento de contracultura Manguebeat nos anos 90. O movimento – que teve início com o Manifesto Caranguejos com Cérebro, escrito por Science e Fred Zero Quatro (do grupo Mundo Livre S/A), em 1991 – além de trazer as inovações musicais já citadas – também preza pela valorização das culturas regionais nordestinas, pelo desenvolvimento de um senso local de identidade própria para a criação de melhores condições de vida da população da região, pelo estado de conservação do manguezal e sua melhor exploração.

O longa, ainda sem previsão de data para lançamento, será dirigido por Pedro Von Kruger, que escreve o roteiro ao lado de Felipe Nepomuceno.